Produção e Realização Artística

Produção e Realização Artística
Produção e Realização Artística: Programa de Pós-Graduação em Artes, Instituto das Artes da Universidade de Brasília - Prof. Marcus Mota

sábado, 25 de março de 2017

Primeira versão do pré-projeto: A umidade das almas: fragmentos em conversa com Heráclito. Vrs. 1.0




A umidade das almas: fragmentos em conversa com Heráclito. Vrs. 1.0

Premissa conceitual

Durante a minha formação como pianista, entrei em contato com uma técnica interpretativa que envolve a postura física do corpo. De uma forma sintética podemos referir que o afastamento do corpo em relação ao teclado favorece o controle do desempenho de material musical de intensidade diminuta, ao passo que o investimento físico do corpo sobre o teclado do piano auxilia a produção de secções musicais de forte intensidade. A exploração performativa da interpretação musical desta peça irá partir desta premissa, assim como a composição da partitura levará em conta a virtual performatividade dos gestos musicais em função do fluxo de intensidades da narrativa cênica.

Situação cenográfica

A cena será composta por uma larga mesa sobre a qual estarão colocados dois teclados, um piano digital de 88 teclas e um pequeno dispositivo de controle midi com um teclado de 24 teclas. Os dois teclados estarão dispostos um contra o outro, acessíveis a dois interpretes sentados, orientados frontalmente um para o outro.
O piano digital será, naturalmente, objeto do meu próprio desempenho pianístico, enquanto que o pequeno teclado será acionado pela bailarina convidada. Este teclado terá associado a cada tecla um fragmento sonoro que desenhará gestos musicais autónomos de diferentes morfologias e distintas intensidades. A expressão musical da bailarina estará, assim, confinada a vinte e quatro objetos musicais. 
Um sistema de amplificação quadrifônico estará montado em redor da mesa. O sistema quadrifonico será composto por um par de monitores de estúdio, uma caixa de amplificação individual e uma espécie de escultura sonora, uma assemblage que incluirá um altifalante rudimentar entre outros elementos compositivos (em que se poderá incluir uma pequena tela de tablet). O piano será amplificado pela caixa monofônica e os objetos eletrônicos que caracterizam a verbalidade da bailarina serão emitidos pela escultura sonora. Igualmente em redor da mesa estarão dispostas as cadeiras onde se sentará o público. 

Os interpretes estão sentados em bancos, de forma a conquistar o maior espaço possível para o trabalho do corpo. A sua presença é indissociável de uma polarização espacial em relação ao seu teclado, e resume-se, na maior parte do tempo, a gestos e movimentos do tronco, braços, ombros e cabeça. Num determinado momento poder-se-ão levantar e assim cortar o vínculo da sua dualidade. 

Dispositivo Dramatúrgico

1 – Sobre a causalidade dramatúrgica:
Penso num casal que partilha uma história de amor, composta de boas e más memórias, em confronto com a sua solidão primordial e com o mundo enquanto adversário inominado. A compreensão da sua história e os eventuais desdobramentos são o conteúdo do seu diálogo errático e fragmentário. A continuidade desse encontro é associável à continuidade do tempo no seu fluxo de causalidades e de efeitos em permanente mudança (como o rio de Heráclito), assim como a presença do amor é uma rede inextricável de identificação e de discórdia, de desejo e de repulsa. Sobrevive a dúvida sobre a determinação em conquistar a compreensão do lugar do amor (é inexplorável e inacessível ) ou sucumbir ao preço da alma. 
Este mundo poderá estar simbolizado em eventos sonoros emitidos por uma imagem estereofônica independente, propagada por duas das caixas de som. O diálogo entre o casal reúne uma perplexidade comum com a existência em toda a sua multiplicidade e a tensão desta com o esforço expressivo individual da percepção subjetiva. Não há palavras envolvidas, mas música e sonoridades metamusicais.



2 – Sobre a composição:
A duração da performance é perpassada e impelida pela duração musical. Uma partitura estrutura o fluxo de intensidades que, por sua vez, traduz a evolução do diálogo. A partitura irá nascer de três contingencias fundadoras:
·         A qualidade intensiva das situações cênicas desveladas ao longo do processo criativo.
·         A relação poética da composição de cada objeto musical com diferentes fragmentos de Heráclito.
·         A qualidade sônica dos objetos musicais que constituem o acervo controlado pelo teclado menor pensados como uma espécie de casulos tímbricos que acolhem a discursividade pianística, propiciando a invenção do discurso pianístico em função de uma articulação paramétrica com os objetos musicais eletrônicos.

3 – Sobre a movimentação espacial:
A aproximação e afastamento de cada um em relação ao respectivo teclado virtualiza idêntico movimento em relação ao outro. Tal significa que cada teclado simboliza a possibilidade de expressão e sua qualidade e, simultaneamente, o avatar do outro. A aproximação de um poderá gerar a aproximação do outro (confronto, cumplicidade ou desejo) o afastamento do outro (repulsa, indiferença ou medo) ou a imobilidade do outro (neutralidade ou ausência). A troca de lugares e o abandono do banco (em simultâneo ou em diferido) poderá sinalizar momentos cadenciais da estrutura dramatúrgica.

4 - Sobre Heráclito
·         Para Heráclito, “o saber consiste em ouvir” (Costa, 2002, p. 228).
·         O “não entender”: “a criança ouve o homem mas não o compreende, assim como o homem ouve o logos sem entende-lo” (Costa, 2002, p. 231).
·         O logos une e separa os opostos (o casal): “unindo, opera a comunicação entre eles. Separando, salvaguarda as suas diferenças e respectivas identidades” (Costa, 2002, p. 233).

5 - Fragmentos (1ª seleção)

  • 4. Se a felicidade estivesse nos deleites do corpo, diríamos felizes os bois quando encontram legumes para comer.
  • 8. Os contrários conferem e dos diferentes nasce a mais bela harmonia (e o Prélio tudo origina).
  • 10. Conexões: completos e incompletos, concordante e discordante, consonante e dissonante; de todos, um; de um, todos.
  • 12. Outras e outras águas correm para quem desce aos mesmos rios. (Mas também as almas são exalações do úmido?).
  • 16. Como poderia ocultar-se alguém do (fogo) que não tem ocaso?
  • 18. Quem não espera o inesperado não o achará; que esse é inexplorável e inacessível.
  • 30. Este Kósmos (que é o mesmo para todos) nem deus nem homem algum o fez; sempre foi é e será um fogo continuamente vivo, que se alumia por medida e por medida se apaga.
  • 31.“viragens” do fogo: primeiro, o mar; e do mar, metade terra e metade turbilhão ígneo. – (a terra) derrama-se, qual mar, à medida tal, qual era a de antes que este se tornasse em terra.
  • 36. Morte das almas; tornarem-se água; morte da água: volver-se em terra. Mas da terra (re)nasce água; e da água, alma.
  • 41. Sábio é uma coisa, e só (esta): entender como tudo é governado por meio de tudo.
  • 45. Os confins da alma não acharias, nem que percorresses todos os caminhos; tão profundo logos ela tem.
  • 50. Se escutastes, não a mim, mas ao logos, sábio é concordar que tudo é um.

  • 51. Não entendem como, discordando, consigo concorda: reversa harmonia, como a do arco e da lira.
  • 54. A harmonia invisível supera a visível.
  • 76. (a) Vive o fogo a morte da terra; e o ar, a morte do fogo; a água vive a morte do ar; e a terra, a da água.
  • 77. Prazer (ou morte?) das almas é o tornarem-se úmidas... Nós vivemos a morte delas, e elas, a nossa morte.
  • 80. Importa saber que o prélio é comum, e que justiça é discórdia, e que tudo sucede por discórdia e necessidade.
  • 85. Árduo é lutar contra a ira, pois o que ela quer compra-se a preço da alma.
  • 89. Os que vigilam têm um kósmos comum a todos, mas os que dormem volvem-se, cada um, para seu próprio.
  • 91. Não se pode descer duas vezes no mesmo rio... aflui e reflui... avança e retrocede.
  • 103. Pois comum é o início e o término na circunferência de um círculo.
  • 111. A doença torna grata e boa a saúde; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.
  • 115. É próprio da alma um logos que cresce por si
  • 118. Alma seca: a mais sábia e melhor.
  • 119. Para cada homem a própria índole é o seu daímōn.
  • 124. O kósmos mais belo (e mais perfeito): um informe amontoado de dejetos (coisas jogadas ao acaso).
  • 126. O (que é) frio aquece, o quente arrefece, o úmido seca, o seco umedece.

Os anjos invisíveis

Eis chegado o momento!





















Palavras de Clarice Lispector: "A pecadora queimada e os anjos harmoniosos",
in Todos os Contos, Rio de Janeiro: Roco, 2016, p.374.