FRAGMENTOS DE KHAN para 8 fragmentos de Heráclito
8. Os contrários conferem e dos diferentes nasce a mais bela harmonia
(e o Prélio tudo origina).
LXXV [...]"o
obstáculo é um benefício", a "oposição é vantajosa"; o
que resulta numa afirmação explicita do pensamento implícito em LXVII-LXXIV: na
perspectiva da sabedoria, o termo negativo sempre terá um valor positivo (Khan, 2009, pp. 297-298) .
10. Conexões: completos e incompletos, concordante e discordante, consonante e dissonante; de todos, um; de um, todos.
CXXIV (D. 10) Compreensões (syllapsies): todo e não todo,
convergente divergente, consoante dissonante, de todas as coisas um e de um
todas as coisas.
[...]. Com efeito, e possível dizer de cada dia ou de cada vida particular que se trata de um todo em si, com começo, meio e fim. Mas podemos também, e talvez com maior verdade ainda, dizer que não é um todo, uma vez que faz parte de uma unidade maior: seja o ciclo de dia e noite ou o ciclo heraclitiano de vida e morte através do qual os imortais vivem a morte dos mortais. [...]
[...]: "X
vem de Y e Y vem de X". Em termos cognitivos, devemos entender esses dois
momentos como fases alternadas de síntese e analise, o olhar junto e o olhar
separados que caracterizam a inteligência em geral e o entendimento dos opostos
em particular'. [...]
Portanto, a interpretação física de "uma coisa de todas,
e todas as coisas de uma" inclui, sem precisar estar limitada, ao ciclo de
períodos cósmicos alternados. A forma abstrata dessa antítese exclui qualquer
referência unívoca a um tal padrão cósmico. Esse padrão serve como conflito e amizade, acordo e dissonância
musical, como um paradigma da unidade-na-oposição manifestado por todo sistema
de estrutura racional. [...]
12. Outras e outras águas correm para quem desce aos mesmos rios. (Mas também as almas são exalações do úmido?).
L (D. 12) Ao se entrar nos mesmos rios, outras e ainda outras
aguas afluem.
[...] Considerado em sentido geral, o pensamento expresso
pela imagem do rio reforça o que decorre da imagem da chama: a preservação da estrutura
dentro de um processo de fluxo, em que uma forma unitária e mantida
enquanto a sua expressão ou "preenchimento" material é constantemente
perdida e substituída (Khan, 2009, pp. 252-255) .
36. Morte das almas; tornarem-se água; morte da água: volver-se em terra. Mas da terra (re)nasce água; e da água, alma.
CII (D. 36) Para as almas (psychai) e morte tornar-se (ou nascer como) agua, para a agua e morte tornar-se terra; da terra surge (nasce) a agua, e da agua a alma (psyche).
[...]
todo
nascimento também pode ser descrito como morte.
[...] Todos os testemunhos antigos respeitáveis são,
portanto, unanimes em confirmar a interpretação natural do fragmento CII, com a psique sendo entendida como
uma espécie de vapor atmosférico que surge a partir da agua.
E de fato a visão prevalente no pensamento antigo, na Grécia
como em outros lugares, que a
"alma" ou o espirito de um homem é uma espécie de sopro vital inalado
no nascimento (ou a partir do momento da criação, no caso de Addo) e
"expirado" na morte. [...]
45. Os confins da alma não acharias, nem que percorresses todos os caminhos; tão profundo logos ela tem.
XXXV (D. 45) Não descobrirás os limites da alma (psyche) mesmo se percorreres todos os caminhos, tão profundo é o seu logos.
[...] A doutrina de Tales de que "todas as coisas estão cheias de deuses", [...] pode bem aplicar-se a Heráclito no sentido de que todas as coisas estão cheias de alma.
2) A ilimitacao da psyche é expressa por uma frase que ecoa
em outros lugares dos fragmentos: "Não os descobriras"'.
[…]as noções de descobrir e alcançar chegam quase a
coincidir, de modo que o use desse verbo em outras passagens de Heráclito sugere que a ilimitacao
da alma está intimamente relacionada tanto com o mistério da morte quanto com noções
de ordem cósmica e castigo pessoal aplicado em retribuição a uma má ação.
[...]A ilimitacao
da psyche é assim entendida em termos de uma profundidade impenetrável. Sondar o vão da agua é algo vão, pois não há
linha de sonda capaz de achar o fundo desse mar.
[...] Assim
e o logos da alma: ele é vasto sutil e profundo; e é a inteligência, sem tergiversações,
que deve encontra-lo. Um logos tão profundo e ilimitado dificilmente
pode ser diferente do logos universal, segundo o qual todas as coisas
acontecem. A solução do fragmento XXXV nos oferece, assim, uma explanação mais
completa de XXVIII (D. 101): buscando
o seu próprio eu, Heráclito pode achar a identidade do universo, porque o logos
da alma vai tão fundo que coincide com o logos
que estrutura todas as coisas do mundo. Daí o erro dos homens que tratam
o pensamento como algo privado diante do fato de que o logos "é
comum" — a eles e tudo o mais (III, D.2) (Khan, 2009, pp. 172-179) .
85. Árduo é lutar contra a ira, pois o que ela quer compra-se a preço da alma.
CV (D. 85) Difícil é lutar contra a paixão (thymos); pois o que quer que ela queira e comprado a expensas da alma (psyche).
[...]E tão difícil resistir a raiva precisamente porque a sua expressão, o ato apaixonado de autoafirmação na ira ou indignação justificada, se assemelha muito ao princípio de vitalidade enquanto tal, a orgulhosa afirmação da própria vida. Mas, assim como o fogo e a discórdia devem ser apagados quando ameaçam o bem comum (CIV, D. 43), também o espirito da raiva pode levar ao crime e a destruição uma vez que se permita a sua transformação numa ira fora de controle.
[...] Antecipando o que vira, eu gostaria de observar que não
precisa haver contradição entre esta concepção da raiva como ardor irracional
da psique e o fragmento CIX (D. 118), pois este último distingue a alma mais sabia e melhor por
sua secura e claridade, não por seu calor (Khan, 2009,
pp. 376-380) .
115. É próprio da alma um logos que cresce por si
CI (D. 115) A alma pertence um logos que aumenta a si mesmo.
[...]Assim, com toda a devida precaução, eu conjecturo 1) que o poder da psique de aumentar a si mesma é parte do que se quer dizer com o "logos profundo" da alma em XXXV (D. 45), e 2) que essa força de auto expansão é manifesta na exalação ou transformação da água aquecida em vapor [...]
118. Alma seca: a mais sábia e melhor.
CIX (D. 118) Raio de luz é a alma seca, a melhor e mais sabia.
[...]Isso confere uma nova dimensão a doutrina heraclitiana da alma: da mesma forma que a umidade enfraquece a alma levando-a a perecer transformando-se em água, a secura a fortalece e a melhora a ponto de deixa-la purificada como luz (não fogo). [...]
. O
fragmento CIX define em termos poéticos a melhor condição da psique como uma espécie
de aither, não o fogo enquanto tal, mas a clareza e luminosidade do céu superior,
em oposição ao estado úmido e escuro do aer mais baixo, que compreende a bruma,
a neblina e a nuvem.
[...]. O
que é especificamente heraclitiano é o enriquecimento dessa doutrina física com
nuanças figurativas e poéticas: o bêbado de alma úmida, e a alma seca que é
lucida como os raios de sol. Essas imagens não servem meramente como um
ornamento de estilo, mas como a expressão simbólica de uma correlação rigorosa
entre os estados físico e moral-intelectual da psique.
[...]sabedoria
e excelência simplesmente são a condição seca da psique.
[...]Segundo essa visão, a psique enquanto uma substancia atmosférica
intermediaria entre agua e
fogo, grosso modo semelhante ao ar ou hálito/sopro (pneuma), pode, e claro, ser
úmida; mas se ela de fato se transforma em agua — se ela se liquefaz ou se
condensa — ela "morre", isto e, ela deixa de ser psique (CII, D. 36).
E, de modo semelhante, ainda que a vida-sopro possa ser seca e quente e cheia
de luz, talvez ela não possa ser inflamada como fogo celestial sem
"morrer", sem deixar de ser a psique propriamente dita.
psyche tem o sentido de "vida
[...]e
isso não apenas porque para Heráclito todas as coisas estão dotadas de
pensamento, mas porque e precisamente em pensamento, conquanto ele esteja em
boas condições — como no caso da alma seca que se pode abarcar a estrutura de
todo o universo.
[...] Num outro sentido, a psique e apenas uma forma elemental entre outras, uma
bolha que estoura e é esquecida na continua produção de novos vapores a partir
das águas que fluem sem cessar no rio do cosmos.
[...]"pelo
espaço o universo me compreende e me engole como a um ponto; pelo pensamento,
eu o compreendo"'.
[...] Para
Heráclito, assim como para Espinosa, esta experiencia da eternidade, longe de
ser uma questão de sobrevivência pessoal, consiste exatamente na superação de
tudo o que e pessoal, parcial e particular, no reconhecimento e plena aceitação
do que e comum a todos (Khan, 2009, pp. 382-396) .