Produção e Realização Artística

Produção e Realização Artística
Produção e Realização Artística: Programa de Pós-Graduação em Artes, Instituto das Artes da Universidade de Brasília - Prof. Marcus Mota

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Diário de Ensaios #2

24/04/17


Vídeo disponível em: https://vimeo.com/215403594. Senha: <heraclito>.



Para o segundo ensaio programámos esboçar a montagem da parte inicial da peça, composta pelas cenas 1 a 3 (refira-se que já existe a intenção de criar uma cena zero, marcada pela audição de uma música composta a partir da gravação do fragmento 45: ψυχῆς πείρατα ἰὼν οὐκ ἂν ἐξεύροιο πᾶσαν ἐπιπορευόμενος ὁδόν· οὕτω βαθὺν λόγον ἔχει[1]).

Propus expandir o momento 2 com a criação de uma cena que nos colocasse em presença um do outro, dando espaço para a criação de um momento de performatividade musical da minha parte, com a criação de uma reatividade de Erica no plano do movimento. Neste momento a estrutura composicional demanda já uma planificação mais detalhada; após uma troca de impressões prévia, esboço no quadro da sala de ensaio uma espécie de partitura da sequência de ações proposta. Ela inclui todas as cenas até ao momento em que teria início o material composto no ensaio anterior, tendo sido posteriormente inseridas as durações resultantes a partir do registro em vídeo. A organização foi pensada em termos de gestão proporcional dos vários momentos e a sua composição foi organizada a partir dos primeiros valores da série de Fibonacci (0,1, 1, 2, 3 e 5).


Partitura de movimento para as cenas 1 a 4

Esta partitura, cuja rápida elaboração decorreu de uma operatividade bastante familiar de composição musical, permitiu implementar a narrativa cênica com controle prévio do seu equilíbrio formal. 

Pudemos assim concentrar-nos na expressividade estritamente performativa, tendo eu delegado para um momento posterior (tal como no ensaio precedente) a elaboração da sua dimensão sonora. Neste ensaio começou a tomar forma uma intensidade relacional que estava intuída nos meus desígnios iniciais, algo que se fundava numa relação profunda entre os dois personagens, e que simultaneamente se debatia com os dilemas heraclitianos relacionados com a interrogação da alma e o poder que ela tem de se “aumentar a si mesma” (Khan, 2009, p. 369).

Já em estúdio, passei a delinear um primeiro esboço da partitura musical, começando por reproduzir no piano os gestos musicais as partir da movimentação observável no vídeo, procurando uma sincronia aproximada, mas tentando igualmente entender e organizar uma estrutura frásica que fosse ao encontro da evolução narrativa da cena 2. Para a cena 3, a que chamei interiormente de “trêmulos em boca de peixe”, compus uma sucessão harmônica aplicável quer ao meu desempenho pianístico, quer aos objetos sonoros de Erica, o que propiciou o entendimento da implicação musical entre os timbres contrastantes numa unicidade compositiva.



Blocos harmônicos em "boca de peixe".

Terminada a pós-produção deste registro de vídeo, elaborei um pequeno texto refletindo sobre a minha colocação como autor e suas implicações em relação quer ao atual momento da pesquisa quer em relação à sua incidência na qualidade coreográfico-musical da obra. Esse texto foi enviado (juntamente com o link de acesso ao vídeo) a um conjunto de cinco coreógrafos e/ou diretores teatrais (com os quais mantenho relações de trabalho de intimidade variável) no sentido de obter novos insights a partir das respectivas recepções. Estas são reproduzidas, assim como o texto que lhes dá origem, numa outra postagem. Um elemento não programado mas potencialmente importante é o subsídio que tais recepções poderão eventualmente significar para o alargamento da pesquisa no que se refere à questão dialógica do plano de colaboração.

É importante referir ainda que todo este processo criativo é intimamente afetado pela circunstância de eu estar, simultaneamente, envolvido num outro processo de colaboração com Erica. A composição da música para a sua nova criação perpassa, de modo significativo, todo o pensamento poético e formal que orienta a minha própria inventividade coreográfico-musical.   

Para o próximo ensaio pretende-se uma reflexão com Erica sobre alguns aspectos levantados por esta partilha (com três recepções, até ao momento), bem como a experimentação das seguintes ideias:

1.      Para o final (após a execução do último gesto pianístico no vídeo) imaginei o início de uma nova secção (talvez acompanhada do regresso do mantra inicial) de um novo momento em que eu interpretaria uma nova ideia musical caracterizada por grande serenidade e beleza. Erica abandonaria o seu lugar, colocar-se-ia sobre as minhas costas, tocando esparsamente notas isoladas na região grave e na região aguda, com movimentação alternada e amplamente ondulante dos braços, como asas de águia. A peça terminaria com os dois corpos unificados numa massa só, em repouso sobre o piano (será belo ou será muito brega?).
2.      Importante trabalhar a questão da movimentação de pernas e pés no âmbito do movimento já existente.  




[1] “Os confins da alma não acharias, nem que percorresses todos os caminhos; tão profundo logos ela tem”.

Sem comentários:

Enviar um comentário